As bailarinas de Degas
e as discussões esvaziadas nos museus.
Há pouco mais de dez anos…
…me sentia como uma das bailarinas de Degas, ainda em sala de aula, nem tão polida assim, e o joelho de base tremendo em attitude. Havia na parede uma réplica da Sala de dança, que me dava toda a segurança de que não ser impecável era normal. Talvez até bonito.
Edgar Degas. Sala de dança, 1874. Musée D’Orsay. Imagem autoral, capturada em fevereiro de 2022.
Antes mesmo de entrar na faculdade, eu já tinha um repertório muito denso sobre o que era uma bailarina profissional, e não era aquilo que eu via nas pinturas e esculturas de Edgar Degas. O que eu via não parecia certo. Naquela época, a arte era misteriosa demais, distante demais, e eu achava que não sabia ver, mas percebia que certamente existia uma explicação e uma motivação para aquilo que eu olhava. Afinal, eu estava acostumada com a ideia de que arte era beleza, como poderia ser bela uma bailarina descansada? Coçando as costas? Ou um arabesque mal sustentado? Como a sala de aula poderia ser mais inspiradora do que o palco para aquele artista? E ainda assim, tudo era realmente bem bonito para mim.
Edgar Degas. Conjunto de esculturas de bronze no Metropolitan Museum of Art. Imagem autoral, capturada em julho de 2025.
Naquela época, eu ia aos museus e lia absolutamente tudo o que havia disponível, desde as fichas técnicas aos textos curatoriais, mas lembro de me frustrar quando só falavam de estilo e pinceladas. Por vezes, os textos davam um gostinho do que a obra poderia significar, mas não mais do que o que eu realmente queria saber: decifrar aqueles códigos visuais. Acho que todos os que não estão familiarizados com a história da arte já passaram por isso, e certamente se pegaram pensando no porquê de darmos tanta importância a esses objetos se tudo o que os museus têm para dizer sobre eles são informações genéricas ou algumas linhas de puro formalismo.¹
Anos mais tarde, como estudante de História da Arte, a coisa ficou ainda mais complexa. Em certo ponto, não soube mesmo se valia a pena estudar algo que parecia ser mais uma longa história de especulações e teorias, até que finalmente entendi que havia uma disputa de narrativas que me interessava bastante. Era possível dizer muito mais sobre a arte do que certas curadorias faziam parecer e, sim, é preciso ter um certo repertório para compreender as ausências. O que ninguém diz é que essas ausências nem sempre são conceituais, às vezes não passam de um sintoma de esvaziamento de discussões mais potentes.
Museus não são neutros. Não sei quem disse essa frase primeiro, mas é impossível não concordar com ela, principalmente se você considera o conceito foucaultiano de museu como um espaço de questionamento e reconfiguração de poderes. É preciso ter em mente quem são os patrocinadores, quem está por trás da administração da instituição e quais são os curadores. Lembra que eu disse que há uma disputa de narrativas na história da arte? Pois o museu é um ótimo lugar de reafirmação de poder.
Mas o que tudo isso tem a ver com as bailarinas? Bem, lá em 2021, o curador Fernando Oliva havia comentado que museus afora têm optado por uma abordagem estilística em torno da obra de Degas, deixando implícito que aspectos como a prostituição das jovens bailarinas, o elitismo e as condições de trabalho dessas mulheres não eram relevantes o suficiente para serem mencionados ou aprofundados na curadoria. Foi a partir dessa constatação que ele acabou desenvolvendo um catálogo para o Masp chamado Degas: Dança, Política e Sociedade.
Em um trecho publicado pelo Jornal da USP, Fernando Oliva fala especificamente do caso do museu D’Orsay:
Além de optar por não dar atenção ao problema dessas mulheres, manteve-se em uma posição de neutralidade em relação ao lugar privilegiado que Degas ocupava na sociedade parisiense e no elitizado sistema dessa casa de espetáculos. Pois, além de artista de prestígio à época, ele também era abonné, um associado, gozando de tradicionais regalias, como desconto nos ingressos, lugares reservados e, em especial, passe livre para a lubricidade do foyer de la danse. O acesso privilegiado às bailarinas movia toda uma dinâmica de dependência, assédio sexual e prostituição infantil.
Edgar Degas. A pequena dançarina de quatorze anos, 1922. Metropolitan Museum of Art. Fotografia autoral, capturada em julho de 2025.
Acredito que, a partir de agora, você já está começando a enxergar essas bailarinas de outra forma, sob uma perspectiva sociológica. Isso talvez te interesse mais do que a afirmação genérica de que o artista “representou a sociedade do seu tempo de uma forma descarada, quase científica, sem uma sombra de hipocrisia”, como apresenta o museu D’Orsay em seu site, por exemplo.² Caso eu não conhecesse um pouco além sobre o trabalho de Degas, confesso que não saberia como ele representou a sociedade de seu tempo, já que o texto não deu nem uma pista de como ele teria feito isso. Eu apenas enxergaria uma bailarina em formação, exatamente como eu via antes de me tornar historiadora da arte. Jamais diria que a dançarina de quatorze anos havia se prostituído, por exemplo. Essa informação só poderia ser revelada aos que fossem atrás de pesquisar, não é tão óbvio apenas ao olhar.
Se me permitem a graça, não sei quem veio primeiro, se foi o ovo ou a galinha, mas às vezes tenho a impressão de Woody Allen se inspirou nessas curadorias para o roteiro do filme Meia-Noite em Paris, só porque é maravilhoso pensar numa cidade inspiradora, onde todos os intelectuais se reuniam para trocar ideias e produzir um grande acervo de patrimônio cultural e artístico. Só porque é muito mais confortável amar a Paris da Belle Époque, por isso é difícil admitir que ela nem era tão bela assim. Na verdade, a cidade não era tão especial como nos fazem crer se pensarmos que essas meninas teriam sido igualmente exploradas em qualquer outro lugar naquela época.
Meu ponto é que as escolhas são feitas ao dizer e ao omitir. Ao deixar de lado o aspecto social da arte, os museus dos quais Fernando Oliva comenta acabam por destacar informações que podem reforçar a distância entre o espectador e o sistema elitizado de arte. Com isso, não quero dizer que as obras devam ser excessivamente explicadas, até porque também acredito na importância de se abrir espaço para a imaginação e para a apreciação estética, mas para isso é preciso equilíbrio, estratégia e conhecimento de causa. Quando Portinari disse que a pintura que se desliga do povo não é arte, não pensei tanto no objetivo dos artistas com suas obras, me pareceu mais importante pensar no que seria dito sobre essas mesmas obras depois, ou seja, que histórias contaríamos sobre elas.





Uau!!!!!! Amei!!! Acho que quanto mais estudamos sobre esse tipo de coisa, mais vamos enxergando todos os silêncios absurdos e bizarros, todos os recortes de poder que antes eram invisíveis pra nós, mas que começamos a perceber que permeiam o mundo todo, a nossa vida toda. Que loucura. Adoro seus textos Ray!